2012/12/14


História #08
Autor: Alex (a & y)

- Imaginavas diferente?
- Mais fácil, sim. - respondi.
Ele sorriu.
Eu sorri.
Enrosquei-me no cachecol de lã, apertando a chávena de chá contra o meu peito.
- A vida não é linear.
- Que queres dizer com isso?
  Que não é previsível? - perguntei fitando-lhe o rosto doirado.
- Que não é programável.
- Acredito pouco em coincidências. - disse, lançando para o horizonte as palavras.
- Continuas um homem de Deus.
  Apenas lhe mudaste o nome.
- Todo o homem acredita em qualquer coisa. - proferi, baixando os olhos para as suas mãos ternas.
- Em que acreditas tu?...
  Neste mar que nos observa?...
  Neste farol que nos segura?...
  Nesse chá que te aquece?...
  Em mim?... Em ti?... No amor que sentes por mim?...
- Não. - sorri.
Ele sorriu.
Voltámos para dentro, às tarefas de natal.

2012/12/13


História #07
Autor: Mark (As aventuras de Mark)

COMIGO A CADA NATAL

Fábio não queria acreditar que a sua vida havia mudado. Que, pela primeira vez, despertara a atenção de alguém que aprendera a amar sozinho. O que sentia fazia-o prosseguir a cada dia; cada acordar era diferente e o medo de ser feliz começava a ganhar importância. Dissera a si mesmo que viveria aqueles momentos enquanto durassem.
Marcara o encontro para as sete. Teve noção de que percorria o caminho inverso à maioria das pessoas que encontrava no caminho. Se todos seguiam em direcção à Consoada – mais ou menos feliz – Fábio corria atrás da felicidade. Era o momento decisivo para desvendar a solidez daquele encantamento.
Um homem de meia-idade passou envolto num casaco gasto. Nas mãos, um único saco em cujo interior era perceptível o embrulho infantil, simples. Um presente. Uma criança que aguarda o seu brinquedo.
Um mendigo acomoda-se à entrada da estação, despido de desejos que ficaram na sua longínqua infância. A chaminé, de onde sai o doce aroma a filhós, não o presenteará com a iguaria natalícia. Pelos lugares onde dormita não há chaminés e o Pai Natal, esse, deixou de o visitar há muito…
- Julgava que não vinhas! – exclamou Fábio.
Os seus olhos denunciaram de imediato o que sentia.
Rodrigo, sempre temendo a reacção de terceiros, levou-o a um lugar resguardado e beijou-o sofregamente.
No momento em que se perderam nos braços um do outro, o mendigo ergueu-se do seu leito composto por um singelo cobertor e sorriu. Acordara. 
Jamais se esquecera do que os unira.
O presente de natal do Pedro
O rapaz dos mil e um projetos e das cidades de céu :-)



Ao som de Um pouco de céu (Mafalda Veiga).

História #06
Autor: Namorado (Namoro com um pop star)

IMATERIALIDADE

Beija-me. Agarra-me como se tudo acabasse hoje e deixa-me repousar em ti sem cobrança. Formemos uma piéta de dois homens que se querem. Que se desejam. Que não sabem ser, a não ser… que sejam em uníssono. Devora-me as inseguranças e puxa-me o discernimento. Não permitas que contabilize o tempo. Que faça balanços, ou que me arrependa. Não queiras o meu lugar, só porque quero o teu. Desprende-me, só para te contemplar. Só para desenhar o teu sorriso perfeito, que reflectia a minha cara de parvo, quando dizias que me amavas. Quando afirmavas que iríamos ficar para sempre juntos.  Quando fazíamos planos grandiosos, com fundações rigorosas… capazes de afogar o mundo. Quando já sabias de tudo e me deixaste ignorante.
Aquece-me a alma. Seca-me o choro. Deixa a luz apagada e permite o silêncio. Não digas nada, porque já não há nada a dizer. Vamos fingir que tudo continua igual e que juntos venceremos. Que quebraremos as barreiras da incompreensão familiar e que colocaremos de vez a sociedade no lugar certo. Beija-me, vá. Cala-me com os lábios e jura. Disseca as promessas antigas e renova-as. Deixa-me pensante. Permite-me analisar tudo. Sim. Tenho esse direito. Tenho essa obrigação. Porque desde que partiste e me deixaste sozinho aqui, que o Natal deixou de ser sinónimo de nascimento. Passou a ser uma coisa fria. Baça. Distante. Sinónimo da tua imaterialidade. Onde o destino exibe sem pudor, que nos abarcou noutra vida, que não esta.

2012/12/12


História #05
Autor: Jota


MALDITO CHAMPANHE

Eram 20h em ponto quando o Tigas me ligou, a resposta para mim era óbvia, não podia estar presente ou estava demasiado atrasado para a ceia de natal?
Atendi e confirmei aquilo que o meu cérebro já havia adivinhado.
As estradas estavam cobertas de neve o que impossibilitava a circulação de qualquer veículo.
Um misto de emoções fez vibrar todo o meu corpo, não chorei decidi não o fazer, antes liguei o som, coloquei a nossa música e abri uma garrafa de champanhe e mesmo sem recorrer ao copo, bebi, bebi de modo a deixar o meu cérebro sem qualquer poder de raciocínio.
Por instantes fui interrompido pelo tocar da campainha, um som bastante ensurdecedor. O meu coração disparou e sem dar tempo a qualquer pensamento abri a porta de acesso à rua. De frente para mim estava Tigas e no mesmo instante ouvi um som que percorreu todo o chão da sala. Direcionei o meu olhar para baixo e reparei que o champanhe que ainda restava me acompanhava, estava agora derramado por todo o chão assim como os pequenos vidro que compunham a garrafa.
O Tigas olhava para mim com aquele olhar penetrante e intenso, pelo qual me apaixonei, estava mais sensual que nunca e num tom charmoso deixou escapar 4 palavras: JOTA, AMOR CASAS COMIGO?
Neste momento já estava arrependido de ter tomado todo aquele champanhe que me impossibilitava de raciocinar corretamente.
E agora limpo todo este chão ou caio nos braços do homem que amo?
Maldito champanhe!!!

História #04
Autora: Margarida (mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta)

FELIZ NATAL


Ele sentou-se à mesa do café. Não pronunciou nada. Limitou-se a esperar que ela servisse o mesmo de sempre. Bebeu a bica em dois sorvos e, de uma assentada, engoliu a ‘meia São Domingos’. Soltou um estalido com a língua, satisfeito.
- Onde é que ela está? – perguntou, então. Tirou a boina e olhou-a, compenetrado, como se perscrutasse, no padrão às riscas finas castanhas escuras, os carris que deixou, há mais de duas décadas.
- Pai… - a mulher suspirou. – Está a descansar.
- A casa está calma. – ele fingiu que não ouviu, enquanto a automotora a diesel fazia soar o apito, no fundo da sua memória enfarruscada.
- Virão mais logo. – a mulher respondeu.
- Esses… – ele resmungou, enfiando a boina na cabeça calva. Tirou um Kentucky do maço amarfanhado do velho casaco e colocou-o nos lábios.
- Continuas com os malditos mata-ratos. – ela apanhou a chávena de café e o cálice. – Vens cá logo ou não?
- Ela virá?
- Sim, Pai, ela virá. – foi a resposta que recebeu, antes de sair do café, mal-humorado.
Caminhou sem rumo durante horas. Por fim, estacou em frente ao café, já a noite entrava pela madrugada adentro. Cheirava-lhe a bacalhau com todos, a filhoses e canela. Abriu a porta e o silêncio rodeou-o. Até o bebé, ao colo da mãe, o mirou, curioso. Depois, riu e esticou os pequenos braços.
- Anda ao avô – disse ele, transfigurando-se. – Faz falta um homem nesta família, rapaz.
Elas suspiraram e sorriram.
- Feliz Natal!

História #03
Autor: Pinguim (Whynotnow)

QUASE UM CONTO DE NATAL

Recordo um Natal, já algo distante em que os meus Pais foram passar a quadra com uma irmã minha e respectiva família, ao Brasil. Fiquei só, os meus irmãos distribuídos por outras famílias e eu aqui por Lisboa…

Sim, o Natal é a festa da Família, quando ela existe ou quando ela está presente; e quando tal não acontece?

Nesse Natal estive tentado a ir passar a noite da Consoada com um grupo de pessoas, algumas delas, meus amigos e outros conhecidos, que, por falta da família e por falta dos seus companheiros que tinham ido passar o Natal às suas terras, ficavam sós e assim, todos os anos se reuniam numa Consoada para eles, ali na zona da Charneca da Caparica.
Entre eles um bem conhecido transformista, talvez  o melhor de todos que já houve em Portugal e que já não está entre nós.

Não fui, não porque fosse mal recebido, antes pelo contrário, mas porque sabia que embora passasse aquela noite acompanhado, em família também, embora de outro género, estaria triste por vários motivos e poderia estragar o convívio. Mas imaginei como seriam essas Consoadas das pessoas que não sendo jovens, apenas tinham os seus afectos com as pessoas que amavam, mas que não estavam presentes, e tinham os afectos deles com eles próprios, decerto trocariam presentes, teriam uma ceia com bacalhau e iguarias próprias da época e passariam umas horas acompanhados. E depois, regressariam a suas casas com a sua solidão.

Esta é uma realidade que atinge hoje muitas pessoas, e não quero misturar o Natal dos sem abrigo, que é outra realidade bem triste, mas diferente.
Refiro-me àqueles homossexuais que passam o Natal sós e talvez sintam nessa noite, mais do que em qualquer outra ocasião, a falta de uma Família.

2012/12/11


História #02
Autor: Kuma (Vírgulas do destino)

UM PRESENTE INESPERADO

Nevava.
Estava tudo pronto: lareira acesa, música a tocar, uma garrafa de Porto aberta.
Preparava-me para passar o meu primeiro Natal sozinho, quando batem à porta.
Fui abrir.
Tinhas o cabelo cheio de flocos de neve. O teu rosto estava branco. Os teus olhos, inchados e muito vermelhos. Olhei para ti, surpreso.
“Ursinhoooo!” – gritaste, começando a chorar e abraçaste-te a mim.
Estavas gelado! Confuso com a situação, abracei-te, sem saber o que dizer.
Tinhas razão! – disseste-me entre soluços – o Hugo estava a usar-me! E eu que me acreditei nele....!
Ursinho...
...perdoas-me?
Recomeçaste a chorar, a tua cabeça encostada ao meu ombro, os teus braços bem apertados contra mim.
Fechei os olhos. Afaguei os teus cabelos e beijei-te. Sentia um misto de tristeza e de prazer...
Anda, vamos para dentro, raposinho! Estás gelado! - exclamei.
Assentiste com a cabeça e entraste.
Ao entrares, perguntaste, admirado:
Espera lá...
...tu vais passar o Natal...sozinho?
Desprendi-me do teu abraço, para te ir buscar uma manta quente, enquanto te servias duma bebida.
Sim, vou...
A minha família “convidou-me a sair”...
Tive que lhes relembrar que esta casa é minha... – respondi, sorrindo.
Sorriste-me levemente. Envolvi-te numa manta e trocamos um beijo.
Estás perdoado, raposinho... – sussurrei com doçura.
Posso passar o Natal contigo, ursinho? – perguntaste-me.
E a tua família, o que vai dizer? – inquiri.
A minha família és tu, tonto! – respondeste-me a rir.
Encostamos a cabeça um ao outro, observando o fogo da lareira.
Demos as mãos e trocamos carícias. Beijamos-nos.
Lá fora continuava a nevar.
O presente de Natal da Margarida
A Margarida escreveu 9 contos com que presenteou outros tantos amigos da blogosfera. Eu recebi um conto lindíssimo e retribuo com uma t-shirt/gif para ilustrar aquele fragmento de felicidade :-)
Recomendo a leitura de "A felicidade é intermitente" e dos restantes contos de 250 palavras.

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Lembrando os dias em que, ao som de This one's for you (Ed Harcourt), fingíamos ser aviões e voávamos à volta da mesa da sala.

História #01
Autor: Wagner W. (Ser sem Ser: Wagner)

Eu, a mamã e o papá. Somos felizes os três.
E, curiosamente, encontrei-te no dia em que fomos os três às compras.
Lembrei-me: «Porquê?»
Quero-te a ti.
Não há razão aparente para manter a farsa de um Natal que não admite amor.
A mãe sempre referiu que «As prendas trazidas do Pólo Norte são falsas.
As verdadeiras vêm do coração. E tu, meu filho, tens um pequeno.».
Mas quando te vi, não sei como, o coração cresceu.
Não te posso ter. A mamã o papá e eu, uma trilogia desgastada mas resguardada.
Tu, que tens oceanos dentro.
Um marinheiro na areia.
Um filósofo e um poeta.
Tu, que vives em terras brancas de inocência.
Posso sentir a lâmina a cortar-me. Mas não posso chorar.
Este Natal, o meu primeiro, morrerei.
E tu ainda me olhaste.
Morrerei, mas amado…