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2012/05/09

História #extra
Autor: Driftin' (anagrama do silêncio)

UM DIA DIFERENTE

Uma casa velha, muito branca - um daqueles brancos imaculados e rugosos, à espera de que as palavras se abram num sorriso. Uma casa velha na projecção da memória que se reflecte nos espelhos do tempo.
Entrei!... Teria sido indelicado ignorar o convite, qualquer que fosse o pretexto. O inesperado não era, decididamente, um argumento válido, não obstante a surpresa. Não obstante os compromissos.
Foi um sorriso quem me abriu a porta. Um sorriso transparente, quase como os da minha juventude, quando a tia Laurinda me saudava lá de cima, da janela sobranceira a um futuro que já não existe. Ou quando um desconhecido parava à conversa com o rapaz que, por alguns dias, se libertava da azáfama da grande cidade.
Lá dentro, como num filme a preto e branco, recordei-me dos gestos, dos sentimentos, da vida daquelas pessoas que, hoje, se calhar, haveriam de olhar-me como um estranho. O tempo substituiu a alegria pela distância. A cordialidade pela indiferença. A verdade, essa, acabou por se perder nas areias do esquecimento.
Uma casa muito simples. O inconfundível cheiro de uma tranquilidade à beira da extinção. Um breve silêncio e, depois, quase o reencontro de dois amigos nas coordenadas do acaso. Nas inesperadas reviravoltas da vida. As confidências pareciam ter-se reunido no semicírculo dos cadeirões, como se há muito aguardassem por uma ocasião propícia. Como se a amizade não desse trabalho. Como se fosse óbvia. Espontânea.
À saída, um abraço ocupou o lugar de um incaracterístico aperto de mãos. Um abraço confiante, decidido, sem obstáculos. Teria sido um dia diferente sem o convite do Ezhno. Um dia menos preenchido. Mais pobre.

2012/05/01

História #35
Autor: Ricardo (uma outra face)

Tudo o que queria agora era um abraço teu. Não era sexo, não era um beijo. Apenas um abraço, um longo abraço e poder adormecer neles. Sempre me senti tão confortável neles, sentia que nada me podia acontecer.
Não eram como os abraços que dava a mim mesmo antes de adormecer. Esses não me reconfortavam, não me acaloravam como os teus, eram no fundo vazios, mas serviam-me. Não que preenchessem um qualquer vazio que eu não sabia que existia, mas não me deixavam dar conta dele. Até que, apareceste tu e me abraçaste. E agora que não estás aqui dei-me conta desse vazio que estava lá, mas que eu não sentia.
Sabes aquele momento cliché dos filmes românticos em que a protagonista se abraça a ela durante o chuveiro, e se deixa cair até ao fundo da banheira, por ter perdido o seu amor?
Credo, que a parede é fria, quem diria? Mas eu não me importo. E choro e vou-me a baixo.
Afinal é no chuveiro que penso e os meus pensamentos foram dar a ti, a nós, aos teus abraços e agora compreendo a protagonista que eu achava fatalista e terrivelmente melodramática. Mas ao contrário do filme, tu não voltas. E eu levanto-me. Aguento-me. Saio do banho totalmente seco e recomposto. Vou para a cama. Abraço-me e volto a adormecer.
Estes servirão até encontrar os últimos braços, que me darão os abraços que me serão perfeitos. Porque têm de estar por ai, não me podem ter dado a conhecer a felicidade para a ter perdido para sempre.
História #34
Autor: Sad Eyes (good friends are hard to find)

ONE HUG IS ENOUGH

Enquanto crescia, Hugh descobria o prazer dos abraços: aqueles apertos ternurentos com a forma do seu corpo. Um abraço era suficiente; e todos os dias, com um enorme sorriso, aquele menino abraçava toda a gente. O menino tornou-se o rapaz dos abraços que já ninguém estranhava. Haveria mais alguém que tivesse abraçado todos os familiares, amigos, colegas, professores e vizinhos? Só Hugh. E quando chegou àquela idade em que todos os amigos queriam mudar o Mundo, a utopia de Hugh era abraçar todas as pessoas do planeta; mas percebeu que seriam milhares de milhões de abraços, e que teria que abraçar centenas de pessoas por minuto, durante todos os minutos de todos os dias; por isso, quando os amigos perceberam que afinal não podiam mudar o Mundo, Hugh já sabia que nem sequer o conseguiria abraçar por inteiro. Mas não se deu por vencido; decidiu que começaria por abraçar a sua cidade. Vestiu-se de abraços e lançou-se nessa árdua mas prazerosa tarefa. One hug is enough, era o mote com que Hugh ia para a praça nos finais de tarde abraçar os transeuntes. Foi desta forma que conheceu um rapaz que todas as tarde ali passava para receber aquele abraço. Agora Hugh também gostava de o abraçar, todos os dias; por isso ficou triste na primeira tarde que ele não veio. Mas no dia seguinte o rapaz voltou, e os dois com um grande sorriso abraçaram-se como se fossem velhos amigos. Então o rapaz disse-lhe: “ontem não vim ao teu abraço, porque pensei que quisesses dar apenas um abraço a cada pessoa; mas depois percebi que o teu abraço é suficiente para nos fazer felizes, por isso hoje tive que voltar e agora tenho a certeza que, para nós, um abraço não é suficiente.”
(A t-shirt dos abraços de Hugh)
História #33
Autor: Bianca (cabra branca)

ABRAÇO

Sentia-se um traste. Deixara de acreditar na felicidade desde que se lembrava.
Um dia, vai ser o seu dia - dizia a recém-chegada Clotilde, mostrando as fotografias do seu neto – vai sim! Vai encontrar o seu ninho, o seu espaço... Enquanto Clotilde dissertava pela vida cheia que levara, agora resumida ao lar e ás fotografias que trazia da família, Antónia de esperança vazia, fazia-lhe a cama de lavado.
Antónia perdera o último afecto, quando levara a enterrar a que se afizera chamar Tia, dada a doçura e paciência da senhora, que aguardava numa espera eterna a chegada da única neta que lá a deixou, com convicção e promessa de voltar. Não voltou.
Tia, se foi só. Despedira-se num azul céu, acompanhada pela única que respirava, Antónia.
No dia da chegada de Tia ao lar, Antónia tinha-se despedido de um outro corpo, uma menina de 98 anos, continuava a ser menina, vivera uma vida abastada, recheada de aventuras, abonada de alegrias, uma quase difícil conjugação entre fartura e ternura. Antónia, de vida oca, conhecera todas as tramas da falecida, a que dava agora cama vazia a Clotilde.
Antónia, largada desde que se conhecia, vivia no lar. As senhoras vinham, chegavam com vidas cheias e ainda pejadas de vida partiam.
Que pensa você Antónia? Está tão pávida, tão calada... continuava Clotilde. Antónia, não mais queria saber de vitalidades gozadas, fotografias e histórias contadas, queria ela do que lhe faltava, não de uma vida alada.
Encarando Clotilde a lágrima lhe caiu. Saiu do quarto desgastada, abandonou a bata pelo chão do corredor que dava à entrada. Abriu a porta e saiu, saiu para a rua. E quem por ela passou esbarrou com tamanha certeza. Antónia entrou na loja, na da Laura florista, adornava ela ramos garbosos que acompanhavam no adeus às suas senhoras de passados fogosos.
Beijou, um beijo profundo com tenros lábios. Laura percebeu, Antónia chegara.
História #32
Autor: João Pedro

"SERÁ UM ABRAÇO POSSÍVEL?"

- Vai a casa buscar o livro, encontramo-nos, e devolves-me.
Fui depressa!
Mais de um ano depois, como seria rever-te? O sentimento de culpa pela forma descuidada da minha parte em como tudo acabou ecoou longamente em noites, como a última... Vi-me ao espelho no elevador... não queria que me visses amargurado, mas sereno.

Encontrámo-nos na estação de metro, o local mais impessoal possível... A Boa Educação não nos deixa ficar mal...
- A Faculdade corre bem? Quando Acabas? Tudo bem com a família? ... (Uma aparente simpatia momentânea confortou-me... mas tenho poucas esperanças de que acredites que, sinceramente, te desejo Felicidade...)
Prolonga-se o mero encontro utilitário na mesma carruagem... Ficámos frente a frente separados pelo silêncio que me cortava... Dir-te-ia que, com o tempo e a convivência, por vezes percebemos que estamos a construir a vida num rumo que parece errado, que os valores pelos quais eu te escolhi foram errados... E que tu não eras como eu pensava que fosses...
Isso não significa que o sentimento que me juntou um dia a ti não fosse genuíno. A culpa nunca é de um só, mas da junção dos dois que não resultou... Eu sei que aprendi contigo e connosco. Sei que és uma pessoa fantástica e ainda vejo beleza em ti... Doeu-te, mas nunca podia ficar contigo por pena. Doeu-me! Mas hoje sei que fiz o certo.
Dizer-te isto, seria para ti como confirmar a minha leviandade e desrespeito por ti... Mas a exaustão há muito que me venceu. Silencio-me em bandeira de paz...
Essa paisagem, fotografia por mim que encontrarás no meio do teu livro, é como me quero lembrar de nós: na beleza de um sentimento que não previa o desvanecer...

2012/04/30

História #31
Autor: CC

ABRAÇO… AQUELE ABRAÇO!

Foi a 13 de Novembro de 2010 que tudo começava, a partir dai foi um desenrolar de sentimentos! Apesar dos 19 anos de diferença! Ele de 39, eu de 20, nascia ali um grande amor! Começou com uma troca de mensagens constantes, até ao dia da 1ª chamada, e ao dia em que ficávamos apaixonados pelas vozes, o que levava a um 1º encontro no dia 20 de Novembro! Jantamos! Passeamos! Até ao acontecer do primeiro beijo…beijo que levou ao forte Abraço! Abraço que nos deu a entrada a uma aventura de 70km de distância! Foram 7 meses de namoro e de puro amor, de pura felicidade, de diversão, de aprendizagem e muitos Abraços sempre que nos víamos e que nos despedíamos! Amor, amor, aquele que dizia, digo e direi o maior amor que alguma vez vivi, e talvez a maior aventura em que me meti! Mas que como a maioria dos namoros teve um fim! Um fim, que ainda hoje não é sentido! Mas mesmo no dia que tudo terminava, houve um Abraço, Abraço esse que guardo comigo e ao qual ainda me recordo das palavras que ele me sussurrava ao ouvido: “o fim disto não significa o fim do nosso amor, mas sim a falta de tempo para o viver!” 
AMO-TE M.
História #30
Autor: Believer

Estacionei o carro e olhei para o relógio. Já passava da meia-noite.
Olhei para ti, com um nó na garganta tão grande quanto podem ser os nós na garganta. A minha voz mal se ouviu “Tens a certeza que queres fazer isto?”  A tua resposta não variou “Eles nunca aceitarão.
Não quero viver assim, escondido e infeliz. Quero terminar com isto, quero ficar contigo para sempre.” Estremeci com estas palavras. Quem não sente as chamadas ‘borboletas’ quando a pessoa que se ama nos diz ‘Quero ficar contigo para sempre?’
Saímos do carro. Ninguém na rua. Já ali tinha estado algumas vezes, com amigos, uma ou outra vez a
fumar um charro, enquanto contemplávamos as ondas chocando impiedosamente contra as rochas, como se estas tivesse cometido um crime sem perdão. Chamam-lhe Boca do Inferno, como se aquela pudesse ser a entrada para esse mundo de sofrimento e martírio. Mas para nós, seria a entrada do céu, o fim de dois meses de uma vida camuflada, o fim da peça de teatro que tinha montado para a minha família e para os meus amigos. A partir dali, poderiamos ser nós próprios, o que quer que isso signifique após a partida.
Chegámos ao limite da rocha. Na escuridão ouvíamos os rugidos do mar. Abraçámo-nos. “Amo-te!”
Tomámos balanço, de mãos dadas. No preciso momento em que me vou lançar para a frente hesitei e
olhei para ti. As nossas mãos soltam-se. Vejo o teu rosto de menino assustado a desaparecer na escuridão.
História #29
Autor: Meia Noite e Um Quarto (00:15)

Abraçamo-nos…
“-Tantas, tantas, tantas horas a falar sobre este momento e finalmente chegou! Estou lhe abraçando…
- As tardes de Domingo, as gargalhadas e as juras compartilhadas…
- Sempre que eu mais precisei tu estava lá, na tela, enxugando minhas lágrimas com palavras, amenizando meus maus momentos com seu sorriso.
- Tinha que ser! Contigo experimentei o amor pela primeira vez, só fiz o que devia.
- Ah meu portuga! Me conheceste apaixonado por um conterrâneo teu, me aconselhaste sempre que precisei, me viste fazendo as maiores loucuras e mesmo assim não desististe de mim!
- Gosto de ti porque sim! Os sentimentos foram crescendo e nem um oceano me tirou a força de lutar por este nosso sonho!
- E é por isso que gosto tanto de ti meu portuga! Tu és o único que me apoia nos meus sonhos mais absurdos e me dás força incondicional para seguir em frente! Sonhei tanto com esse momento!
- E eu… noites e noites a adormecer e a imaginar o teu abraço a aquecer-me a alma. É surreal!
- Ninguém me conhece como tu me conhece, e ainda assim estás aqui, finalmente nos meus braços.
…”
Desenlaçamos os braços um do outro e só depois daquele longo e tão intenso abraço nos beijamos pela primeira vez.
Porque o que mais ansiávamos não era o beijo, não era ver a cara ou o corpo um do outro.

O que mais desejávamos era O Abraço! A harmonia daqueles dois corpos que se amavam.
História #28
Autor: K. (ser outro que não eu)

CRESCEMOS ASSIM TANTO?
Trago sempre na carteira uma foto nossa. Nela tu abraças-me e exibes um sorriso sem dentes. Eu ainda tinha aquela carinha angelical, muito diferente da que tenho agora, com lágrimas que teimam em não parar.

Naquela altura ainda éramos crianças. Orgulhávamo-nos dos bigodes de iogurte e comíamos ervilhas congeladas porque eram o mais próximo dos feijões mágicos dos desenhos animados. Nas nossas brincadeiras éramos muitas coisas, desde tartarugas-ninja, a moto-ratos, passando por cavaleiros do Zodíaco, guerreiros do espaço e até mosqueteiros, mas na realidade éramos sempre irmãos. E como eu era o mais novo, era hábito tu abraçares-me sempre que caía e esfolava os joelhos. Muitas vezes não havia nada de ternurento nesses abraços. Limitavas-te a apertar-me contra ti para camuflar o choro para que a mãe não ouvisse e nos mandasse para dentro de casa.

Entretanto crescemos. As minhas pernas já são do tamanho das tuas, pelo que já poderia acompanhar a tua passada sem cair. A nossa capacidade de comunicação aumentou por isso já poderíamos conversar sobre os tempos passados e dos que ainda estão para vir e que em mim substituíram o medo do escuro e de aranhas. Agora até já poderíamos competir para ver quem dá o abraço mais forte.

Nada disto acontecerá. Quando me viste abraçar e beijar o meu namorado gritaste que tinhas nojo de mim e viraste-me as costas. A partir desse momento deixamos de ser um por todos e todos por um. Aliás, tu disseste já não tenho irmão.

Tenho saudades tuas…
História #27
Autor: Speedy (hammering in my shell)

PEQUENA-HISTÓRIAS-SEM-
INTERESSE-NENHUM-MAS-QUERIA-PARTICIPAR-NO-CONCURSO-DO-SADEYES

Não te aproximes.
Não olhes para mim nem sorrias como se nada tivesse acontecido.
Como ousas entrar de novo no meu espaço?
Serás assim tão insensível ao ponto de não perceberes a dor que me infligiste? O vazio que carrego há anos?
Se não passei de um passatempo porque voltas para brincar? Estás aborrecido?
Os brinquedos velhos, gastos em novidade, querem-se no lixo.
Estou velho para jogos.
Maldito sejas, cabrão! Maldita a hora em que te deixei aproximar, em que baixei as defesas e deixei-me envolver nas tuas falsas melodias. Só o teu perfume, de uma qualquer marca francesa, deixava-me nauseado. O mesmo aroma intenso que trouxe no corpo para casa nessa noite.
Por favor não te aproximes.
Queres um abraço? Os teus trejeitos metem-me nojo, paneleiro de merda.
Esperas que esqueça, que ignore a indiferença com que me brindaste nas semanas seguintes? Que te envolva como se nada fosse?
Larga-me.
Quero um homem ao meu lado. Não um menino imberbe com pretensões a ser mais do que é.
Sinto o bater do teu coração apressado no meu peito... os teus dedos a cravarem-se nas minhas costas... o teu cheiro a monopolizar os meus sentidos.
Sussurras algo.
Por favor... larga-me.

2012/04/28

História #26
Autor: Inês Montenegro (tales of gondwana)

"PORQUÊ QUE CHORAS?"

“Porquê que choras?”
- Porque me dói.
“O quê?”
- Tudo, dói-me tudo!
Os braços curtos rodearam-no, confortando-o no seu choro de menino, livre e inocente, de brincadeiras azaradas.

“Miguel.”
- Que foi?
“Porquê que choras?”
- Não choro.
“Eu conheço-te…”
- Deixa-me.
“Não o posso fazer.”
E ele chorara, blasfemara e insultara… Socara a parede até esfolar os punhos, dando vazão ao turbilhão que a ex-namorada lhe causara quando o traíra. Deixara-se escorregar até ao chão, aceitara o novo abraço, caindo no esquecimento amado que apenas ele lhe proporcionava…

- Entrei!
“Naquele curso!? Porra, parabéns!”
- Dá-me um abraço – rira, nem ele mesmo sabendo se a sério se a brincar. Ele dera-lho, folgado e animado.

“Conseguiste?”
Miguel calou-se, o cenho cerrado, mantendo o mistério. Rafael socou-o ao de leve.
“Conseguiste ou não?”
- Que me dás se tiver conseguido?
“Um abraço.”
- E se não?
“Outro abraço.”
- Só!? Não vale!
“Um beijo. Ficas feliz?”
- Homo.
“Gay.”
- Está bem, está bem. – Um sorriso rasgado, brilhante. – Consegui. – Abriu os braços. – Tenho emprego.

O ramo de margaridas caiu sobre o caixão fechado, precedido pelo primeiro punhado de terra – ambas haviam sido um privilégio (irónico, tão irónico chama-lo assim) da família. Ele era amigo – um eterno amigo para todos os demais. Apenas Rafael sabia o quão mais eles eram.
Agora, apenas Miguel o saberia.
Regressou a casa, a notícia do acidente ainda tão descrente, tão irreal quanto no momento em que a ouvira.
Como desejara por aquele último abraço…

2012/04/26

História #25
Autor: João e Luís (INDEX ebooks)


O HORTO PRODIGIOSO

Chamámos-lhe Abbo porque foi no 6º dia do mês de outubro que o encontrámos na roda dos enjeitados, olhos muito azuis, cabelo muito louro, um menino jesus, como lhe chamou o abade. O horto do mosteiro era o seu poiso predileto e, naturalmente, tomei-o por aprendiz. A sua juventude, alegria e beleza enfeitiçavam os frades, que o adoravam. As plantas a seu cuidado davam mais flores e as árvores que regava, fruta mais sumarenta. Lembro-me bem como tudo começou! O sino ainda não tinha tocado para as Vésperas, quando Abbo me apareceu, esbaforido. Estava no pomar do horto, sentiu uma mão acariciar-lhe os cabelos, voltou-se, não viu ninguém, chamou, ninguém respondeu, assustado, correu a procurar-me. “Foi o vento”, acalmei-o. Mas depois de tornar, uma vez e outra, inquieto, procurei o abade que decretou: “Abbo é tão belo e tão bom que um anjo desceu do céu para lhe tocar”. Tranquilizado pelas palavras do abade, em dias solarengos, quentes, Abbo, já rapaz, banhava-se no riacho que atravessava o fundo do horto e, húmido, fresco, estendia-se na relva para se entregar às carícias do seu anjo. As mãos invisíveis desciam-lhe agora pelo corpo, procuravam-lhe recantos escondidos e descobriam-lhe prazeres desconhecidos. Na noite de calor abafado, tardio, em que fez 17, Abbo saiu para o horto em busca duma brisa. Nessa noite as carícias do anjo foram mais insistentes, os seus gemidos mais pungentes, o seu abraço mais apertado. Abbo, surpreendido, sentiu-lhe o arfar arquejante no pescoço, certas durezas pressionando a sua carne e, ofegante de desejo, acedeu ao abraço sensual. O seu grito de êxtase foi abafado pelo casquinar diabólico que então ecoou por todos os recantos do mosteiro. Quando os frades, atemorizados, saíram a procurá-lo, não encontraram mais que erva queimada no lugar onde repousara o corpo de Abbo e um fedor infernal a enxofre pairando, insuportável.

2012/04/25


História #24
Autor: Silvestre (blog do silvestre)

FODA-SE

Odiei aquilo. O filho da puta veio-se na minha boca depois de eu lhe dizer que não queria, mas prendeu-me a cabeça. Não pude fazer nada. Depois riu-se quando me soltou. Qual é a graça, cabrão? Deves pensar que és a última bolacha do pacote. Ando à meia hora agoniado com um gosto a ovos podres e salgados na boca. O que é que o gajo tinha nos tomates? Nojento de merda. Se pudesse cortava-lhe os dois. O gajo até gosta de mim. Com ele estou sempre garantido. E hoje em dia não há muita coisa com a qual podemos contar. Na verdade nunca consegui contar com grande coisa por parte de ninguém. Quando se nasce na merda pouco mais se é que merda e ninguém quer ter merda agarrada aos sapatos. E o gajo está aqui todos os dias, aparece todos os dias sem falhar um. No outro dia deu-me um abraço. Disse-me que me amava enquanto desapertava as calças e me empurrava a cabeça para eu lha chupar. O meu pai também dizia que me amava enquanto me arreava 2 socos no focinho que me faziam espirrar sangue do nariz e da boca. Era para o meu bem, dizia ele. Eu era muito rebelde e esse castigo era amor… Anda tudo fodido dos cornos? Calem-se com a merda do amor. O gajo deve pensar que eu vou ficar aqui a vida toda. Sou puto mas não sou parvo. Daqui a 4 meses faço 18 anos. O meu pai já não me pode deitar a mão e deixo esta puta de vida e os cabrões que vêm aqui para ser chupados. Que morram todos! Mas antes que me encham os bolsos para eu me pirar para Londres… Mas o que é que aquele filho da puta tinha nos tomates. Foda-se.

2012/04/23

História #23
Autor: João e Luís (INDEX ebooks)

CARTAS DE AMOR

Meu querido Afonso,

Por certo estranhaste não ter atendido os teus telefonemas e não ter respondido quando tocaste à minha porta. É verdade, mudei de telefone, mudei de casa e até de país, e só agora arranjei força e coragem para te escrever. Estou no Rio, “cidade maravilhosa, de encantos mil”, mas faz-me lembrar a nossa lua-de-mel em Pemba e dou por mim a chorar por quase nada, uma gaivota que passa a deslizar no céu rubro do poente, o estrondo seco de um coco a despenhar-se na areia. E é por isso que odeio estar aqui. As saudades de ti são uma ferida que não sara e que me dói todos os dias.
Sabes, não me chega existir só para satisfazer os teus prazeres furtivos, os prazeres que me juraste que a tua mulher não te pode dar. E já não acredito nas tuas promessas de divórcio e nas desculpas para não contares a verdade aos teus filhos. Fugi para longe porque ainda te amo muito (como nunca amei ninguém!). Tu és o meu vício, o meu grande vício, o vício em que receio voltar a cair se te aproximares de mim outra vez.
Mas vou sobreviver! Enquanto tiver amor para dar, saberei viver! Sou gay mas, ao contrário de ti, tenho orgulho de ser quem sou! Tenho toda uma vida para viver e não a vou desperdiçar. Mereço ser amado incondicionalmente e quem sabe, talvez casar.

Recebe este último abraço do teu amigo,
Rui

2012/04/19


História #22
Autor: Filipe

A REVELAÇÃO


Já há muito que lhe queria contar. Nada melhor que dizer que sou gay ao meu próprio tio que também o é! Sentia aquela necessidade de contar o meu maior segredo àquele que teve comigo nos momentos mais importantes da minha vida e que melhor me conhece. Não sei se ele sabe que sou gay... mas tenho de lho dizer, sinto-o. Liguei-lhe para irmos beber um café à Brasileira, no Chiado. Marcámos para as 19h do dia seguinte. Sentámos, pedimos café e começamos a conversar.
- Ainda bem que vieste, queria mesmo falar contigo!
- Então, o que se passa?
- Passa-se algo que já deves saber…
- Acho que sei o que é…
- Gosto de homens (disse baixinho)
- O quê?
- Gosto de homens? (ainda não dava para ouvir bem)
- O quê?
Gritei - SOU GAY, PORRA!
Toda a gente olhou para mim... as pessoas que estavam na esplanada e que passavam naquela rua, olhavam-me. Senti-me envergonhado, queria sair dali! Coloquei as mãos sobre a mesa e deitei a cabeça sobre elas, a tentar esconder-me... não estava a acreditar!
O café chegou. O empregado tossiu e eu recompus-me para ele poder colocar o café na mesa. Olhei-o e mexi os lábios, a pedir desculpa. Ele piscou-me o olho e sorriu e eu sorri-lhe.
Depois o meu tio disse-me que já sabia e que o mais importante é eu ser quem sou. Ser gay não significa ser p*** e que tenho que pensar com a cabeça de cima e não com a de baixo. Ser gay é gostar de homens, é uma característica, não uma doença! É ser como qualquer outra pessoa. Amamos e gostamos de ser amados.
No fim, demos aquele abraço cúmplice, libertador e reconfortante.

História #21
Autor: Arrakis (mélange)

COMO NO CINEMA

Sentado no táxi em direcção ao aeroporto e ainda tudo me parecia mentira. Ouvia o trânsito desfilar lá fora mas aquilo era mais um filme mudo ao som de Bach.
E eu tão calmo, tão tranquilo, quase suspenso. Na minha cabeça corriam mil imagens tuas e mil imagens nossas.
Finalmente tínhamos dado o passo, largámos tudo e íamos fugir. Que ironia, tínhamos que ir para longe para estar perto um do outro.

Com os bilhetes de avião no bolso da camisa junto ao coração aos pulos entrei no hall do aeroporto e olhei em volta à tua procura. Nada, ainda não tinhas chegado.
Puxei as malas para um canto e pus-me a olhar para a entrada.
Fixava as portas automáticas que abriam e fechavam e imaginava ver-te entrar. Afinal de contas, este era o plano de abertura de um filme só nosso e não queria perder aquele início por nada deste mundo.

Entrou um grupo de turistas barulhentos que rapidamente desapareceu.
Olhei para o relógio, a porta fechou-se, voltou-se a abrir num ápice e ali estavas tu.
Entraste em meia contra-luz, com o cabelo a brilhar do sol, qual elegância de Adónis atrapalhado com as malas. Correste para mim, parecia que estavas em slow-motion como nos filmes. Parámos frente a frente e abrimos os braços para um abraço tão forte e apertado que perdemos a noção do tempo.

Foi perfeito como no cinema.

2012/04/18


História #20
Autor: Silvestre (blog do silvestre)

DEUS, OS HOMENS E AS MULHERES

«A menina quer conhecer a verdade do Amor?» disse-lhe aquela senhora com um ar de solteirona abandonada. «Desculpe?» respondeu a rapariga com um sorriso, abruptamente resgatada dos seus pensamentos. «A verdade do amor único e verdadeiro que encontra em Deus e que...». A rapariga interrompeu «por favor não me leve a mal, mas sou dada a amores mais terrenos… físicos». «Mas o amor dos homens não se compara à glória de Deus, como pode renega-lo em prol da satisfação dos desejos físicos» insistiu a mulher. A rapariga, fez um ar condescendente «agradeço-lhe muito a preocupação, mas também não sou dada ao amor dos homens. Só tenho prazer com o amor das mulheres, assim sendo estou aparentemente fora desse grupo». «Isso é Satanás a falar pela sua boca» contrapôs a mulher com ar horrorizado. «O demónio está instalado no seu corpo». «A que chama demónio? O gostar de sentir o corpo suave de uma mulher contra o meu, os mamilos eretos a roçarem-me a pele enquanto os lábios húmidos me exploram do pescoço aos pés?». A mulher a quem de repente a voz fugiu pelo efeito do espanto e da aversão, respondeu com um guincho entre o infantil e o animal «Senhor Meu Deus, salva esta mulher possuída pela Serpente…». «humm… a serpente…» continuou a rapariga com um ar libidinoso «a minha companheira tem uma língua ágil como uma serpente e dedos hábeis que já conhecem de cor o mapa das minhas pernas e das minhas nádegas e todo os caminhos que levam a serpente à minha…». «Chega!» gritou a mulher, afastando-se meio trôpega e rapidamente por força da cólera. «Já vai embora?» perguntou a rapariga «Nem me dá um abracinho de despedida?».

2012/04/17


História #19
Autor: Francisco (um deus caído do olímpo)

OLHOS VERDES

Senti um toque nas minhas costas, olhei para trás e reparei que era o "Olhos Verdes". Apenas cheguei-me atrás e enrosquei-me no corpo dele. Adorei sentir os seus braços envolverem-me junto ao seu corpo e pouco tempo depois, ele tinha as mãos dele dentro dos meus bolsos da frente...
Fomos em direcção à praia de mão dada. Pelo caminho trocámos alguns beijos. Não me recordo do nome dele, apenas me lembro que ele estava a trabalhar em Espanha para juntar dinheiro para ajudar no casamento de uma irmã.
Beijámo-nos à beira mar, à medida que o calor dos beijos "subia", começava a desaparecer a roupa dos nossos corpos. Estávamos de cuecas e fomos ao banho. Até ali só tínhamos trocado beijos e abraços...
Saímos da água e caímos um em cima do outro. Os nossos corpos encontraram-se e uniram-se num só...
No final, acompanhei-o até perto do apartamento e despedimos com a promessa de nos vermos no dia seguinte. As nossas últimas palavras foram: - "Hasta Mañana"
Por culpa minha, não voltei ao local e à hora marcada. Aos dias de hoje, apenas me lembro do cheiro do seu corpo no nosso último abraço.

História #18
Autor: Abraço-te (abraço-te)

Um abraço...

Um abraço...
É tudo o que preciso quando estás longe, acompanhado pelo teu toque, o teu beijo, o desejo.
É tudo o que me faz falta, o teu calor, o teu odor, o teu amor.

Um abraço...
Que se define como a minha estrela, o meu guia, o meu dia a dia.
Que se define como a minha âncora, o meu objectivo, como sobrevivo.

Um abraço...
Pudesse eu...sentir um todos os dias e não só nos nossos dias.
Pudesse eu...sentir um todos os dias como ar que respiro.

Um abraço...
Que me faça esquecer a tua ausência.
Que me faça esquecer o teu chegar tardio, o vazio.

Um Abraço...O teu Abraço.
A minha lua, o meu chão, o meu coração,
O meu sol, o meu fogo que arde sem se ver.
Sim!!! O teu abraço constante...Aquele Abraço!!!

Abraço-te

História #17
Autor: Freddy (let's talk)

HUGS