2012/12/20


História #22
Autor: Silvestre (Blog do Silvestre)

6,5,4,3,2,1...

Não consigo expandir.
Sou um músculo tenso, parado,
Prolongado numa cãibra rasgada
no comprimento do meu abecedário emocional.
Sou uma palavra curta sem elasticidade e
a quimera da dilatação não agiliza a minha fé.
Na morte cerebral do nosso amor
será completa a minha necrose.
Decidi.
Sobram seis dias depois deste Natal feliz
ventilado mecanicamente.
Dois homens infecundos somos.
Eu ficarei, desistente.
Desligo.
6
5
4
3
2
1
...

2012/12/19

O presente de Natal do Mark
Ao som de Mariah Carey :-)


Ao som de All i want for christmas is you (Mariah Carey).

História #21
Autor: Hotei (Any more than a whisper)

THE RECIPE OF CHRISTMAS

What a night!, can't wait to get back home and shower off this awful smell of food I have!!...the restaurant was so busy tonight!, its the day before Christmas eve, what do I expect silly me!. Made myself a hot cup of tea right after a steaming shower put on my favourite red woollen socks and grabbed my laptop... I don't want to hear the word food tonight nothing!!!... not even the sight of it I had enough of it!!.
Logged on skype...
(seconds later)
“HELP!.... HELP!! ….Mr Chef I need help!”
“What’s the matter Guga?” I asked promptly!
“Tomorrow is Christmas eve and I am to bring food to the dinner my mother is organising! But I have no idea how to get this right!!”.
“Great” I thought, “more food!”.
“What is you plan to do my dear Guga?”
“Sericaia!!” “Please help me Alex, You know what sericaia is right?”
“SURE!!! I do that’s easy! ” I replied without thinking... (My Brain)-“right! Never heard of it! And I'm suppose to tell him!!! brilliant Idea Alex!... stupid... stupid Alex!!!”
Quickly asked the omnipotent “Google”
And a recipe of this cracked up looking custard appear!
Cam was switched on to find this innocent looking man staring at me from miles away.. half covered in flour in a messy kitchen..how could I say no?.....I just wished to break the glass that was keeping us apart, and kiss those crimson lips of his ...
Like a tiny obedient boy he followed my instruction and tips one after the other, looking and smiling to me... every time we looked in each others eyes...
Combine the sugar flour and salt...”smile...your wonderful smile”... add the milk “love the way you removed a droplet of milk from your hand with your lips I wish I was that drop of milk...”...Add the cinnamon stick and lemon zest “how much I wish I could be there now...what would I give!”...Mix in egg yolks...whip the whites !! “God I wish this never ends!” Place in baking tray, and sprinkle some more cinnamon “Your eyes I just can't get enough of them” Bake!!...
“The result was a complete catastrophe!!! but taste came out good at least!!his mum congratulated him.”
Merry Christmas

(Versão traduzida, fornecida pelo autor)

Que noite!
Preparei um chá bem quente. Após um duche revigorante, calcei as minhas meias favoritas e fui para o computador... 
"Socorro...Socorro...!"
"Que se passa, Guga?" – perguntei.
“Amanhã é noite de Natal e eu não faço a mínima de como fazer isto!” – respondeste, quase desesperado.
Boa! Mais comida! – pensei eu.
"Que planeias fazer, meu querido Guga? "
"Sericaia! Ajuda-me, Alex! "
"Sabes o que é sericaia, certo? "
"Claro que sim! É fácil!" – respondi eu, sem pensar.
Não fazia ideia do que era sericaia... enfim...
A webcam estava ligada, por isso eu podia ver o olhar inocente deste homem que me olhava a quilómetros de distância.. Meio coberto de farinha numa cozinha em pantanas.
Como é que eu poderia dizer não?
Só queria partir o vidro que nos mantinha separados e beijar os lábios vermelhos do seu...
Como um menino pequeno e obediente, ele seguiu as minhas instruções e dicas, uma após outra, olhando e sorrindo para mim...
“Mistura a farinha, o açúcar e o sal.”
Sorriste.
O teu maravilhoso sorriso.
“Adiciona o leite.”
Adoro a forma como chupaste a gota de leite da tua mão!
Eu queria ser aquela gota de leite...
"Adiciona o pau de canela e as raspas de limão."
Como queria estar aí agora!
Eu dava-te tudo!
"Mistura as gemas, mexe as claras.”
Meu Deus, como queria que isso nunca acabasse!
“Coloca no forno e polvilha um pouco mais de canela.”
Os teus olhos, eu não consigo cansar-me deles!
“Leva ao forno!”
O resultado final foi um desastre! Mas o sabor saiu bem!
A mãe dele felicitou-o!

2012/12/18


História #20
Autor: Jaime (O blog do Jaime)

No Natal a mãe desaparece, a avó que perdeu um filho, perto do Natal, bate nos netos com a fivela do cinto porque faltam ratinhos de chocolate na velha árvore.
No Natal a mãe continua longe, a avó não bate porque também está longe... toda a família está longe.
No Natal os irmãos choram abraçados, sozinhos no meio de tantas outras crianças, agora, com uma árvore que não tem apenas ratinhos.
No Natal a família tenta perceber o espírito. A mãe desaparece, a tia cuida, o Natal não existe.
No Natal a família tenta perceber o espírito e é feita a primeira árvore de Natal, com a ramada de um pinheiro real.
No Natal a mãe fica sozinha, eles os três ficam juntos, não é um feliz natal.
No Natal eles são mais, há árvore, há prendas e há álcool em excesso.
No Natal há álcool em excesso.
Em todos os Natais há álcool em excesso.
No Natal há um incêndio em casa, no mesmo Natal alguém vive na rua.
No Natal um dos irmãos esconde-se para não ser visto a entrar no carro de mais um desconhecido.
No Natal há amigos, há família e há um táxi antes da hora de abrir os presentes.
Neste Natal há família, não tanta família, há amor, há vontade e há luzes, neste Natal há felicidade, há coragem e há paz, neste Natal alguns ficam para trás mas neste Natal há um sincero e verdadeiro Feliz Natal!

História #19
Autor: Rodrigo Teixeira (Um Certo Capitão Rodrigo)

LAST CHRISTMAS

O primeiro encontro foi em um café um dia antes, conversaram durante três horas, Pensou: Esse é o cara e desta vez não deixaria passar.
A noite não dormiu, precisava fazer alguma coisa, afinal, serão trinta dias longe fisicamente. E o que os olhos não vêem, o coração não sente - dizem.
Na rodoviária, ansioso pois já era quase dez para sete, e o ônibus do outro sairia as sete e três e ainda nem sinal do dito.
O suor da água mineral escorria por sua mão, enquanto segurava com cuidado o kitkat na outra. Nervos, diria o médico.
O coração acelera ainda mais quando avista a armação escura do cara:
_ O que você esta fazendo aqui? Tu não falou nada que irias viajar?
_ Mas não vou, só vim te trazer isso - estendendo a água e o chocolate - e te desejar uma boa viagem.
Não precisou falar nada, aquele olhar e cara de cão sem dono já enchia de satisfação, era 21 de dezembro e realmente o mundo poderia acabar ali, agora.
Se abraçaram. O outro partiu.
Quando o ônibus já estava quase fazendo a curva seguindo seu rumo, a janela se abre:
_ Ei.. Feliz natal, feliz natal.
Será o melhor, pensei.

(The XX - Last christmas)
Rapazes dos perfumes.
Oriol Elcacho, o modelo catalão, da nova campanha da Massimo Dutti in Black.



Ao som de The way you look me tonight (Bryan Ferry).

História #18
Autor: Namorado (Namoro com um pop star)

DEUS

O João estava sozinho no mundo. O Filipe sozinho estava. Eram duas almas alheadas, que não queriam sofrer mais. O João tinha sido abandonado pela família aos cinco anos de idade, pelo que nunca soube o que eram ligações. O Filipe, desde que descobriu ser HIV positivo, deixou-se isolar por tudo e por todos.
Naquela noite, curiosamente, talvez empurrados pelo destino, saíram de casa. Vagueavam pelo Chiado ancestral, sem rumo, nem objectivos de maior. Ao longe, ouviram música. Afinações suaves, coordenadas, que os puxavam sem resistência.
O João subiu os degraus de calcário gasto, entrou e sentou-se. Ficou a admirar a talha dourada, abstraindo-se de tudo o resto, até porque não nunca foi católico. Porque quem passou, o que ele passou, nunca poderia acreditar em Deus.
Minutos depois, apareceu o Filipe. Ficou precisamente do lado oposto. Deixou-se permear pelo calor da Missa do Galo e recordou quando era praticante e acreditava. Mas desde que soube o que a vida lhe reservou, que não podia voltar a acreditar em Deus.
Bastaram segundos, para que se sentissem. Para que fundissem olhares. Para que no fim da cerimónia, saíssem calados, e, como rato e gato, tentassem perceber o que os unia e impelia. Até que, por baixo de uma sacada, pararam. E sem pensar na reacção alheia, beijaram-se. Primeiro a medo. Depois prolongadamente. Até que, Filipe quebrou a mudez e disse: “Não sabes nada sobre mim”. Pelo que o João apenas lhe retorquiu: “Espero que me dês a oportunidade de emendar esse erro”.

História #17
Autor: # o meu eu aprisionado (# o meu eu aprisionado)

INDO PELA RUA PERDI-ME NO TEU OLHAR (...)

Saí do trabalho e desci a rua íngreme, a caminho da estação. O meu pensamento vagueava na espectativa de mais uma ceia junto da família, que me aguarda na casa da aldeia. Entre os passos e as luzes da noite gélida, cruzo-me com um olhar profundo, que se fixa em mim, como se já fizéssemos parte integrante um do outro.
Sem que alguma palavra fosse pronunciada, prendi-me no azul dos teus olhos, marcados num rosto preenchido pela barba, que me impediam de desviar o pensamento. Subtilmente ecoou dos teus lábios um … Olá! Que me fez rasgar um sorriso tímido, com um perverso desejo de te beijar. Compartilhamos a emoção e o desejo transformou-se em experiência. Aproximaste-te da minha boca e suavemente, sentimo-nos, enquanto as mãos percorriam os nossos corpos acariciando, com um toque delicado, os rostos arrefecidos pela noite.
Sem que nos impuséssemos algum limite, beijamo-nos, consumando um abraço profundo e reconfortante, em que me senti quente e esqueci por minutos o frio que nos envolvia. Senti o teu respirar ténue pelo meu pescoço, provocando-me um arrepio de satisfação.
Cingi-me ao teu perfume que queria gravar na minha memória, para que me acompanhasse na viagem até casa.
Em tom de despedida, escutei e absorvi as tuas palavras (…) acabamos de nos conhecer e já és especial para mim, tem um Feliz Natal

2012/12/17


História #16
Autor: Pedro (Entalado no armário)


História #15
Autora: Margarida (mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta)

VIRGEM MARIA

- Se não páras com isso, ainda levas mais. – a mãe disse, à mesa do jantar.
A criança fungou. Nas lágrimas deslizava, irremediavelmente, o sonho perdido, que se derramava a seus pés.
- Sinceramente, que ideia a tua! – a mãe prosseguiu – Que haveriam de pensar de nós?
O pai disfarçou o olhar e baixou a cabeça. Mastigou devagar a batata cozida e engoliu a  vergonha.
A criança mordeu o lábio inferior, tentando reter os soluços.
- Eu só queria… - a tentativa de verbalizar o seu desejo resultou numa bofetada que lhe rachou o lábio e a deitou da cadeira abaixo.
Olhou-a, de olhos esbugalhados, com sangue e lágrimas que se enleavam na língua. Notou o sabor acre e salgado, como das outras vezes, mas agora doía-lhe mais. Sentiu um abandono tão grande, como se o ardor dos dedos cruéis da mãe fosse um prenúncio dos dias difíceis por que teria que passar.
- Basta! – o pai levantou-se. Fora a gota de água.
- Se apoiares essa ideia maluca, eu vou-me embora – ela ameaçou.
Ele ajoelhou-se, abraçou a criança e limpou-lhe o sangue com as pontas dos dedos.
- Serás a mais bonita virgem maria da peça da escola – garantiu-lhe.
Ouviram a cadeira a arrastar, a porta a bater, os dias cinzentos a afastarem-se.
O rapazinho ergueu os olhos marejados para o pai e perguntou timidamente. 
- Prometes?
Envergando um manto azul celeste e contemplando um menino jesus deitado nas palhinhas, todo ele resplandecia, qual estrela de belém.