Há uns anos tive um colega de trabalho com quem, à partida, não tive grande empatia, além de que o achava bruto, conflituoso e com maus modos. Por coincidências, nessa altura conheci um rapaz (gay) que era um dos melhores amigos dele, e que me afiançou que ele era homofóbico. Não me espantou, até porque encaixava no perfil que já havia traçado.
Tempos depois, quis o destino (e o meu chefe) que ele viesse trabalhar para junto de mim. Surpreendentemente foi a mim que ele recorreu para pedir ajuda nas novas tarefas que então lhe eram estranhas; e contrariamente ao esperado começou a haver uma empatia muito grande entre os dois, tendo se construido uma amizade que dura até hoje.
Nessa altura eu fazia natação e ele acabou por se fazer de convidado para me acompanhar nas idas à piscina. Por vezes, ficávamos sentados a olhar para quem nadava, e ele começava a comentar os corpos dos rapazes que por lá andavam. Uma vez comentou que achava graça aos garotos com calças a meio do rabo. Com frequência presenciei conversas dele com o irmão mais novo, via telemóvel, e enternecia-me o registo carinhoso e algo paternalista, que terminava sempre com troca de beijos.
Mas a maior surpresa veio na altura em que ele foi pai de um menino; certo dia ele começou com aquelas conversas que quase todos os homens têm sobre os filhos irem ser uns "garanhões" com as raparigas, mas de repente mudou radicamente de registo e disse:
"... mas se ele for gay, também não há problema; claro que eu prefiro que ele não seja, unicamente por ele, porque se ele for, irá ter uma vida muito mais dificil".
Foi a primeira (e talvez única) vez que ouvi um pai dizer isto de um filho. Esta frase, vinda de alguém que, a dado momento, julguei ser homofóbico, é a prova de que nem sempre as primeiras impressões são as últimas ou as melhores.
Agora raramente falamos, mas é um dos grandes amigos que deixei nas Beiras.
Nem sempre somos o que parecemos, ao som de Father and son (Cat Stevens).