2012/12/17


História #14
Autor: João & Luís (INDEX ebooks)

INCENSO E MIRRA?

Tenho 33 anos, estou desempregado e agora fiquei sozinho. O meu namorado, Jonas, deixou-me, julgo que para sempre, com um curto beijo embaraçado e triste. A minha mãe, Marta, ainda não sabe de nada. E do meu padrasto, Jorge, não sei eu desde os 12 anos. Conheceram-se na Nazaré. Marta era uma rapariguinha modesta, filha de pescadores pobres. Jorge era um homem feito, serralheiro mecânico de profissão, um pouco calado e ensimesmado. No dia em que foi viver com ele, Marta disse-lhe que estava grávida, mas garantiu-lhe que ainda era virgem. Ele saiu porta fora, furioso, mas regressou nessa mesma noite, cabisbaixo e resignado.
Passados nove meses nasci, debaixo de um viaduto. A história do meu nascimento já foi contada milhares de vezes. Jorge e Marta tinham ido a Lisboa, para uma manifestação anti-troika frente ao palácio de Belém, mas o carro avariou na A8. O meu padrasto não tinha saldo para chamar o 112. Era noite, estava frio e não havia ninguém, a não ser as ovelhinhas, as vaquinhas e os burrinhos, que ruminavam mansamente, e eu nasci. Mas de súbito, a confusão! Primeiro, apareceu um helicóptero, pairando por cima do viaduto, projetando um forte foco de luz branca diretamente sobre mim. Depois, montados em três grandes limusines escoltadas pelas sirenes furiosas das motos da polícia, surgiram um preto americano, uma loira gorda alemã e um português com olhos de cherne, que saíram para me oferecer ouro, incenso e mirra. Ouro ainda vá! Mas incenso e mirra?

(Monty Phyton - A vida de Brian)

História #13
Autor: Weasley (Deleted Scenes)

OS SALTIMBANCOS

Um dia escrevo-te uma carta, com a letra mais cuidada que os meus dedos já pariram, de poucas linhas, para teres tempo de a ler.
Seria um convite formal, para que juntos nos aventurássemos a percorrer os telhados destas casas que avisto, decoradas com fé e luzes multicolores.
De sobretudo e cachecol, intrépidos íamos saltando, silenciosos como felinos, pelos tijolos insidiosos, com a adrenalina a pulsar na carótida. De coração apavorado, páro, paramos, digo-te aos olhos, se estiveres para cair, agarra-te a mim, assim caímos os dois, tu respondes és tonto, sorrio e abano a cabeça, tu não entendes, és a minha fraqueza, avanças para mim, de braços abertos, mas escorregas, o pé direito a ser arrastado, a minha respiração cessa e lanço-te um braço, agarro-te, puxo-te contra mim, sinto a tua alma a palpitar.
Envolves-me.
Ali ficamos, por momentos ronda um pássaro, piando, talvez faminto, talvez confuso, enquanto esvoaça para longe, assalta-nos um vento gélido, e eu abraço-te com força, e tu abraças-me com mais força ainda. Enfraqueço o meu abraço, elevo a mão aos teus cabelos, pressiono o calor da tua nuca, junto os meus lábios aos teus.
Já só há noite, mas uma noite com vários sóis a fazer de lareira, ocultos pelas pálpebras, ardem na tua boca.
Despertamos e, de novo, existem os tijolos, as casas, as luzes, o frio.
Existes tu, a esperar por mim, existe a minha mão, ainda nos teus cabelos, e eu digo-te Lle naa vanima, ruboriza-se o teu rosto, não o distingo, mas conheço o teu corpo, pegas na minha mão e juntas-lhe um beijo. Continuamos a jornada, olha o céu, reparas tu, eu olho o céu e chovem luzes, rastos intermitentes, os meteoros presentes de deus.
Sentamo-nos no telhado menos íngreme à vista, retiro a manta da mochila, tapamo-nos, os braços a ancorar os ombros.
Como a destruição pode ser tão bela, sussurro, enquanto miramos o espetáculo, não me destruas, tens medo?, desde o princípio, não entendo... (não entendes...) já pediste um desejo, pedi todos, pedi a tua companhia para sempre, para sempre?, para sempre, assim destróis a minha liberdade, a tua liberdade..., sorris e eu fico a amar-te com frio.
Erguemo-nos, preparados para mais uns saltos, e aos tropeções e às risadas, fomos largando rebuçados nas chaminés sem fumo, o medo de te perder a pesar-me em cada passo.

2012/12/16

"Homem prevenido vale por dois."
Dito (que podia ser) gay.

História #12
Autor: Miguel (um voo cego a nada)

SOMETHING STUPID

Detesto canções de Natal. Chega novembro, e os centros comerciais são ocupados por alienígenas bárbaros sob a forma de eternas versões dos mesmos cânticos de sempre. A parte boa é que ao fim de uns dias o nosso cérebro habitua-se à tortura (não há nada a que o ser humano não se habitue) e como que deixamos de as ouvir. Em momentos de especial fraqueza podemos até ser desagradavelmente surpreendidos a cantarolar em surdina uma dessas atrocidades. 
Este Natal decidi adoptar como canção oficial uma que não tem nada a ver com a estação mas muito a ver comigo. Tudo parecia bem encaminhado e o calendário do Natal abria as suas janelinhas, uma a uma, para mostrar promessas de uma noite feliz: concertos da madonna, copos até às tantas com os amigos, botões de punho discretos e charmosos, noites a dançar até de manhã, perfumes italianos com anúncios a preto-e-branco, malhas macias de cores suaves e sobretudos charcoal, fins de semana em Madrid, alianças com o padrão grego feitas de encomenda.
Só faltava abrir uma janelinha do calendário, a última, e tudo apontava para uma consoada aconchegada, a dois, com rabanadas e vinho quente. Estava a correr tão bem. O momento parecia o adequado. O teu perfume entontecia-me, a estrela do Natal iluminava o azul profundo da noite. 
Foi então que eu estraguei tudo, quando te disse qualquer coisa um bocado estúpida, tipo: “eu amo-te”.
 
 
(Frank & Nancy Sinatra - Something stupid)

2012/12/15

O presente de Natal do Pinguim
Porque é assim que o vejo, como um exemplo, uma pièce de résistance.


Ao som de Adieu tristesse (Arthur H.).
Em tempo de novo Pixel, recebemos novidades do the book of distance.
O Miguel (um voo cego a nada) já escreveu a sua história de distância, com a letra A (Antígua), que pode ser lida no seu blogue.
Para o suceder nesta aventura, escolheu o amigo João Roque (Whynotnow) que escreverá a história da letra N. 
Agradeço ao Miguel a sua participação e desejo ao João as boas-vindas ao mundo da distância :-)
Vamos ficar a aguardar novidades e, naturalmente, a seguir o Whynotnow, para saber o que ele nos contará.

Agora que já passámos do meio da aventura the book of distance (que dura há quase um ano), deixo-vos os linques para as histórias contadas nos blogues de cada um dos seus autores:

D (entro)
I (Ilvastor)
S (só)
T (Tempo, esse cruel mensageiro)
A (Antígua)

the book of distance, ao som de Distância (Cindy Kat).

2012/12/14


História #11
Autor: NonSense (NonSense)

DESEJOS DE NATAL

Estava escuro na sala e mal via o cadeirão que se encontrava bem na minha frente, apenas iluminado pela tépida luz da árvore de natal. Arrisquei-me a dar mais um passo.
Senti-me observado.
Uma presença fez-se sentir e enquanto o seu volumoso corpo se encostava às minhas costas arrepiadas, um sussurro no ouvido fez-me saber o que faria ele ali.
- Vais ser meu esta noite! Será o teu presente.
Fui puxado com força e rodopiei. Lançado de seguida contra as costas do cadeirão, inclinei-me.! As minhas calças foram puxadas até ao chão e senti uma mão a percorrer a minha coluna. Desceu. Acariciou-me, beijou-me o pescoço e já eu mal conseguia respirar de tamanha tesão quando senti algo caloroso entrar em mim. Doeu! Gemi de dor, gemi de prazer.
Senti o seu pulsar no meu interior.
O seu corpo encostou no meu, apertou-me com tanta força que me senti 1 só. Foi fundo! A cada aproximação, mais eu ficava descontrolado, ofegante. Sentia-me pingar. Sentia-me vivo e desejado.
Enquanto entrava em mim, acariciava-me com as suas mãos. Poucos minutos depois tive um orgasmo como nunca pensei ter. Todo o chão ficou uma possa. Cai de joelhos. As pernas estavam bambas e nunca me senti tão fraco. A porta da rua bateu.
Com o som brusco tremi e acordei.
- Acorda Joel, o teu pai chegou e precisa de ajuda a carregar as coisas. Veste-te.
Estava completamente encharcado. Tudo não passou de um sonho. Que desilusão.
Levantei-me, limpei-me e fui à janela. Enquanto me vestia vi-o na varanda da frente. Lá estava ele. Sorriu, piscou-me o olho e percebi que pronunciou um ‘’Feliz Natal’’.
Quem sabe no próximo ano.!

História #10
Autor: Francisco (Um Deus caído do Olímpo)

Estamos sozinhos sentados à beira da Lareira. Lá fora está uma noite escura e um frio de rachar. O Silêncio é total, apenas só se ouve a lenha da lareira a queimar. Adoro colocar caruma de pinheiro e pinhas a arder. Adoro o cheiro da lenha queimada. Dentro da panela está a sopa "grossa" que a avó adora fazer. É a hortaliça, o feijão vermelho, a massa o chouriço. Pegamos na colher de pau, e se a colocarmos dentro da panela, ela fica direita e sossegadita de pé (Sad eyes, mais um dito que poderia ser gay)...
Apenas dois cachopos que ficaram para o fim, porque o sono não lhes toca. Pudera... Ambos descobriram o amor debaixo dos mesmos cobertores. Enquanto um coloca caruma na lareira, pinhas e lenha para esta não se apagar. O outro levanta-se e vai buscar duas malgas, pois a vontade de comer a sopa da avó é mais forte que tudo...
Ambos se riem ao lembrarem que a avó sempre dizia "Quem mexe no lume à noite, depois faz xixi na cama..."
Surgem as primeiras vontades de construir algo em conjunto, o viver para sempre, o partilhar até ser velhinho e surgem os primeiros votos de amor:
"SE EU MORRER PRIMEIRO"...
- Serei o canto do rouxinol ao teu acordar;
- Serei o primeiro raio de sol, que te despertará;
- Serei a tua primeira gota de água, que tocará o teu corpo;
- Serei a primeira flor que vires a caminho da escola;
- Serei a primeira gota de chuva que vires ao cair;
- Serei a primeira folha que cairá no Outono;
- Serei o primeiro gaio, que ouvirás da parte da tarde;
- Serei o cheiro da terra molhada, que pisares;
- Serei o cheio da primeira flor, numa manhã primaveril;
- Serei a primeira estrela, no cair da noite;
- Serei a primeira luz do Luar, que te iluminará o cabelo;
- Serei a Estrela mais brilhantes, que vires no Céu. Ali estarei eu sempre à tua espera...
As voltas foram trocadas aos jovens. A caruma a arder na lareira, foi substituída por uma vela num altar de uma igreja qualquer, e uma estrela ilumina mais no céu desde de 25 de Dezembro de 1987.

História #09
Autor: Silvestre (Blog do Silvestre)

ZACARIAS

Zacarias cresceu sem sorte. A sua vida era um túnel de vento ártico, todos os dias. Pequeno e mirrado sempre lhe disseram que nunca iria a lado nenhum e não foi. Ficou ali mesmo. Nunca saiu da casa onde nasceu, a mesma onde o olhar de resignação dos pais por aquele filho murcho continuava a escorrer por todas as paredes, penetrando-lhe o esqueleto enfezado como humidade cortante. Trabalhava no Zoo como tratador de felinos, por favor do Diretor ao pai e à mãe do Zacarias que ali tinham trabalhado em vida. De tão magro e feio nem os leões o quereriam comer e se quisessem, o mundo não perderia grande coisa. Mandava a lei que andasse sempre com dardos tranquilizantes nas calças, apesar do Diretor do Zoo preferir que fosse comido para poupar o dinheiro dos dardos. A vida arrastava-lhe o corpo numa sobrevivência dormente. Sentado no sofá à espera de ter sono, Zacarias viu cair um papel pela chaminé, «Feliz Natal» dizia. Tinha-se esquecido que hoje era dia 24 de Dezembro. Ouviu a campainha. «O Pai Natal» pensou desinteressado enquanto abria a porta. Algo o projetou contra a parede da sala, depois o chão. Em 10 segundos estava de novo no ar pendurado pelo pescoço «onde está o dinheiro cabrão? Fala ou morres agora!». A mão hercúlea esmagava-lhe a traqueia, «não tenho» disse com dificuldade. A mão gémea daquela vasculhava-lhe as calças. Zacarias não conseguia respirar, ia morrer. Caiu no chão… não ia morrer. O ladrão estava de joelhos, tonto… tombou. «Os dardos» pensou, «picou-se». Zacarias olhou para o corpo enorme no chão. Sentou-se em cima dele. Atou-lhe as mãos enormes atrás das costas e sentiu algo que nunca tinha sentido, uma ereção. Nunca tinha pensado em homens, sequer em sexo. Pensava-se assexuado, será que não era? Estava disposto a descobrir. Puxou as calças do ladrão para baixo, subiu-lhe a camisola até ao pescoço. O corpo dele era magnífico, dorsais vincados, nádegas esféricas cobertas por uma leve penugem dourada, pernas amplas e grossas. Desceu-lhe a mão entre as nádegas, sentiu a humidade, as coxas. A ereção doía-lhe, vulcânica. Tinha de telefonar à polícia. «Depois» pensou. Foi à cozinha buscar manteiga. Era noite de consoada e tinha apetite pela primeira vez. 

História #08
Autor: Alex (a & y)

- Imaginavas diferente?
- Mais fácil, sim. - respondi.
Ele sorriu.
Eu sorri.
Enrosquei-me no cachecol de lã, apertando a chávena de chá contra o meu peito.
- A vida não é linear.
- Que queres dizer com isso?
  Que não é previsível? - perguntei fitando-lhe o rosto doirado.
- Que não é programável.
- Acredito pouco em coincidências. - disse, lançando para o horizonte as palavras.
- Continuas um homem de Deus.
  Apenas lhe mudaste o nome.
- Todo o homem acredita em qualquer coisa. - proferi, baixando os olhos para as suas mãos ternas.
- Em que acreditas tu?...
  Neste mar que nos observa?...
  Neste farol que nos segura?...
  Nesse chá que te aquece?...
  Em mim?... Em ti?... No amor que sentes por mim?...
- Não. - sorri.
Ele sorriu.
Voltámos para dentro, às tarefas de natal.