2012/12/20


História #23
Autor: Arrakis (Mélange)


NOEL

Fechou a porta de casa e já na rua, puxou as golas para cima. Subiu a rua cansado depois de um dia cheio, como são todos os dias de Natal. Desde que viviam juntos que se tornara hábito as famílias juntarem-se lá em casa. Era uma conquista de que tanto ele como Pedro se orgulhavam. Tinham conseguido, não sem esforço, que as famílias aceitassem a relação e isso deixava-os felizes.

Não se via vivalma e estava tudo fechado. Pelos vistos não ia conseguir comprar cigarros.
Caminhou pelas ruas vazias desfrutando a cidade só para si. Depois de umas quantas voltas, retirou o maço da algibeira e olhou para o último cigarro com desalento.
- Que se lixe - disse enquanto o acendia.
Amachucou o maço e lançou-o para a papeleira presa ao candeeiro. O maço rodopiou e entrou certeiro pelo buraco mas o barulho que produziu fê-lo dar um salto. Um som esganiçado saía de lá de dentro. Meteu a mão cuidadosamente e sentiu algo fofo e macio. Conseguiu agarrá-lo e puxou-o.
Dois olhos meigos e assustados fixaram-se nos seus. Era um rafeiro malhado com dois, três meses no máximo. Latia e tremia de frio. Ele olhava o cão incrédulo. E agora? Deixava-o ali? Levava-o?
O cachorro gania aflito e ele aconchegou-o dentro do sobretudo.

Voltou para casa. Pedro lia no sofá e sem olhar perguntou:
- Conseguiste os cigarros?
Estranhando o silêncio e ao ver que escondia algo debaixo do sobretudo, olhou-o expectante.
- Cigarros não...mas tivemos um presente especial – disse abrindo o sobretudo.
- Toma! - e passou-lho para os braços. Foi amor à primeira vista, como calculara.
Pedro pegou nele e nunca mais o largou enquanto ouvia toda a história.
Por fim, disse: - Vamos chamar-lhe Noel.

25 comentários:

  1. *.*
    Deliciosamente gay.
    Deliciosamente natalício.
    Deliciosamente ternurento.
    Todos os ingredientes para um docinho bolo.

    ResponderEliminar
  2. Do Arrakis não se esperava outra coisa.
    A palavra excelente chega?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado João. Ainda bem que gostaste. :)

      Eliminar
  3. Subscrevo o Alex. É deliciosamente ternurento :)
    Abc

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Thanks!
      É sempre um prazer participar no Pixel :)

      Eliminar
    2. E é um prazer maior ainda ter-te por aqui :)
      Abraço

      Eliminar
  4. O Alex cheio de razão como sempre!
    PS: reparei que em muitas destas histórias sobre o Natal (tal como nesta do Arrakis), aparece o tema casal gay vs. reunião familiar, o que é uma medida da importância que deve ter para os gays. Os casais hetero resolvem (em grande parte) o assunto salomonicamente: a consoada na família dela (ou dele) e o almoço de Natal na família dele (ou dela). Nos casais gay a questão parece, segundo o PIXEL, muito mais complicada...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É interessante essa abordagem. Alguns por aqui poderão partilhar as suas experiências, mas penso que as duas situações não se podem comparar. Quando eu namorava com a minha ex-mulher, já nos tempos de namoro fazíamos os Natais alternados e com as duas famílias juntas. Ora, parece-me que em muitos poucos casos isso acontecerá nos casais de namorados gays. Temos aqui várias histórias, como a de "o filho" ou a do Pinguim que nos mostram que mesmo quando já existe uma relação de vários anos, não são as famílias que se juntam, mas os casais que se separam.
      Não será esta a regra?

      Eliminar
    2. Penso que o João quer dizer é que os gays, eventualmente, terão mais necessidade de aceitação por parte das famílias. Isso deve-se em parte a todo o processo a que são sujeitos nomeadamente ao processo algo 'traumatizante' porque passam aquando do 'comig out' que por vezes cria danos irreparáveis na célula familiar, coisa pelo que os heteros não passam.
      No entanto, penso que essa necessidade depende essencialmente do carácter e da personalidade de cada um, para uns a família é importante, para outros nem tanto, independentemente de serem gays ou não.

      Eliminar
  5. Que coisa tão fofinha *-* Gostei.

    ResponderEliminar
  6. A família que se escolhe :) E a inveja de quem lê por querer uma família assim :P

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tu andas muito invejoso :p

      Eliminar
    2. Lololol eu sou assim lolol

      Eliminar
    3. A família não se escolhe. E depois há os amigos, esses sim, são a família que escolhemos para nós =)

      Abraços X 2

      Eliminar
  7. Awww! *w*
    Tão fofinha quanto o Noel! :)
    Gostei muito!

    Abraço :3

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado Kuma. Fico super contente :)
      Abraço.

      Eliminar
  8. waaa Love puppies :) this story so nostalgic and must say cute ^^

    ResponderEliminar
  9. E agora com a entrada do Noel na família, decidira largar os cigarros e começar a fazer exercício, sempre acompanhado pelo seu fiel amigo =P

    Adorei o conto!

    Abraço!

    ResponderEliminar
  10. Ahahah! Bem visto! Isso é que era um bom final para o conto.
    Obrigado.=)
    Abraço Weasley.

    ResponderEliminar
  11. top5 - ternura em estado palpável :)

    ResponderEliminar